De que adianta?

A história do mundo foi contada por homens, já a história das mulheres se revela em lacunas e apagamentos. Dos tempos primórdios até os dias atuais, a sociedade foi contendo, marginalizando e silenciando nossas vozes. Na escrita e na publicação de livros, isso não foi diferente. Não só as mulheres que tomaram a caneta, mas também aquelas que tornaram públicas1 suas escritas e suas vozes, todas foram (e ainda são) negligenciadas pela sociedade.

Jarid Arraes, importante escritora brasileira, fez uma pesquisa essencial quando, em seu texto intitulado Homens ainda podem ganhar prêmios literários? (2025), trouxe dados sobre os prêmios literários brasileiros e o espaço da mulher no mercado editorial. Por meio de sua pesquisa, ela nos mostra que estamos muito longe de alcançar a tão sonhada igualdade nos espaços de escrita. A realidade que nos atravessa é a de que o mundo literário, assim como muitos outros espaços sociais, permanece predominantemente masculino.

Segundo a pesquisa da autora, mais de 70% dos vencedores dos maiores prêmios literários brasileiros são homens. Isso não se aplica apenas aos escritores, mas também aos próprios jurados dos concursos. Apesar disso, os dados comprovam que as mulheres publicam mais do que os homens hoje. E isso não é novidade.

No século XIX, por exemplo, autoras que hoje conhecemos amplamente, como as irmãs Brontë (Currer, Ellis e Acton Bell) ou Mary Ann Evans (George Eliot), tiveram que usar pseudônimos masculinos para serem publicadas e, acima de tudo, lidas2. No âmbito poético, as poetisas também tiveram que publicar, muitas vezes, sob pseudônimos masculinos, apesar de representarem grande parte do mercado literário na época (e, consequentemente, de seu lucro).

Se o passado e o presente se tocam na mesma problemática, permanecemos com a dúvida deixada por Jarid Arraes: realmente, de que adianta? Infelizmente, não há como respondê-la. O que podemos fazer é manter a esperança de que, de alguma forma, há como fazer a diferença. De mãos em mãos, de voz em voz, de escrita em escrita, vamos nos infiltrando nesse universo. É através de nossas mãos, em cooperação, que podemos movimentar o que parece permanecer estático.


Escrito por: Fernanda Valezini

  1. O termo publishing vem do verbo latino publicare, que significa “tornar público” ou “revelar”.[]
  2. Leia mais no artigo The Secret Identities of The Brontë Sisters.[]